sábado, 23 de fevereiro de 2019

JARI CELULOSE ESTÁ A PROCURA DE SÓCIO

A Jari Celulose, controlada pelo empresário Sérgio Amoroso, está em negociações com investidores para vender uma parte ou totalidade de seu negócio. Instalada na região amazônica, entre os Estados do Amapá e do Pará, a fábrica da Jari acumula dívidas de R$ 1,2 bilhão. A entrada de um sócio é vital para manter as operações da companhia, especializada em celulose solúvel (usada para a produção de tecido).
Fábrica de celulose da Jari
Idealizado pelo americano Daniel Keith Ludwig, o projeto Jari começou a sair do papel no fim dos anos 1960. O bilionário mandou construir uma fábrica de celulose no Japão, transportada por meio de barcaças até as margens do rio Jari. Instalada em uma área de mais de 1 milhão de hectares, a fábrica inclui uma ferrovia, um terminal portuário e florestas de eucaliptos. Por causa da localização, no entanto, a viabilidade econômica do projeto é questionada. O empresário deixou o País no início dos anos 1980, após vender a Jari com prejuízo.

O projeto mudou de mãos algumas vezes antes de ser adquirida por Sérgio Amoroso, que era dono do grupo Orsa, no início dos anos 2000. O empresário comprou a empresa por um valor simbólico e assumiu as dívidas, que à época já eram de US$ 400 milhões.
Agora, com o aumento do preço da celulose no mercado internacional e o movimento de consolidação do setor - que ganhou força após a fusão entre Suzano e Fibria -, os acionistas da Jari Celulose começaram a se articular para buscar um sócio para o negócio e evitar uma recuperação judicial, afirmaram fontes próximas às negociações.
No fim de 2018, a empresa contratou os bancos BTG Pactual e o Bradesco BBI para procurar investidores. Os donos - Amoroso tem 75% e o empresário Jorge Henriques, os outros 25% - estão abertos à entrada de um sócio ou à venda de todo o projeto industrial.
Pessoas próximas às negociações afirmaram que grupos asiáticos estariam interessados, entre eles a RGE (Royal Golden Eagle), que já tem uma unidade de celulose solúvel no Brasil. Procurada, a RGE informou que sempre analisa oportunidades, mas não comenta rumores de mercado. Em janeiro, os bancos começaram a receber propostas não vinculantes. As propostas firmes deverão ser analisadas nos próximos 90 dias.
A expectativa dos sócios, segundo pessoas par do assunto, é levantar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,5 bilhão com a venda da Jari.
O presidente da companhia, Patrick Nogueira, confirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que os controladores estão em conversas para a entrada de um investidor, mas não deu detalhes do negócio. 



Segundo ele, a planta da Jari produz 250 mil toneladas por ano de celulose solúvel e fatura cerca de R$ 700 milhões. As dívidas estão nas mãos do BNDES, Banco do Brasil e bancos privados, entre eles o Bradesco. O atual projeto comporta um aumento de 20% da produção e há possibilidade de criação de uma nova linha de celulose para outras 750 mil toneladas.
Uma das maiores dificuldades para a entrada de um sócio é a localização em plena floresta amazônica. A venda do pacote completo do projeto Jari é considerada complexa. Instalada no meio da floresta, a área agrícola e florestal da companhia não pode ser repassada a investidores estrangeiros, uma vez que o País impõe restrições para aquisição de terras por grupos internacionais.
Fontes ouvidas pelo jornal O Estado de S. Paulo afirmaram que há na mesa discussões para a venda da área industrial e de ativos florestais, sem incluir as terras. Os atuais controladores ficariam como proprietários da área florestal e poderiam diluir suas participações. Do total de 1 milhão de hectares sob a gestão do grupo, somente 120 mil hectares são ocupadas por florestas de eucalipto que viram matéria-prima para o projeto industrial.
Em 2016, após novos investimentos, a Jari converteu a unidade de celulose tradicional para solúvel, que é destinado para a produção de tecido (viscose) e toda a produção voltada 100% para exportação, sobretudo mercado chinês. No entanto, os acionistas acumularam mais dívidas desde então e precisam de capital para que a empresa não tenha de recorrer à recuperação judicial.
Em 2012, Amoroso, que já era dono do grupo Orsa, vendeu a Jari Celulose e Papel, de embalagens, para o grupo International Paper. O valor do negócio foi de R$ 1,27 bilhão. A companhia, porém, tinha seis fábricas, não estando concentrada na região amazônica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

DO JAPÃO PARA AMAZÔNIA - FÁBRICA DA JARI

A historicidade das sociedades humanas tem so evidenciada pelos constantes domínios impostos à natureza, a Amazônia Brasileira é um exemplar desses acontecimentos. O avanço das tecnologias, a busca pelo capital e a transformação da civilização humana numa civilização moderna tecnológica são aspectos que evidenciam a Amazônia, como cerne de investimentos provenientes do mundo todo, principalmente de países desenvolvidos.
Um desses investimentos trata-se do Projeto Jari, um gigantesco empreendimento voltado para a produção de celulose, idealizado pelo magnata americano Daniel Keith Ludwig. O projeto ficou em evidência no mundo todo, por fazer parte de uma atitude audaciosa do bilionário americano Ludwig em meados dos anos 60.
O processo de ocupação da área correspondente ao Projeto Jari remonta desde o ano de 1882, ano em que José Júlio de Andrade, um migrante oriundo do estado do Ceará, passa a habitar no município de Almerim, no estado do Pará e com o passar dos anos torna-se um grande extrativista da região, além de exercer essas atividades em Mazagão (atual município do estado do Amapá). A ocupação rarefeita desse espaço foi um dos fatores que possibilitaram José Júlio a tomar posse de uma extensão de aproximadamente um milhão e seiscentos mil hectares (16.000 Km²) tendo como ponto de referência, escoamento e mobilidade fluvial, o Rio Jari.
As atividades extrativistas desenvolvidas por José Júlio alcançaram significativas proporções, chegando este a montar uma empresa baseada na comercialização de produtos como a castanha do Pará e a borracha extraída das seringueiras. Em 1948, prestes a falecer vendeu o território a um grupo formado por comerciantes portugueses e um brasileiro, que deram continuidade as ações lá realizadas, sendo responsáveis pela administração da empresa gerada por estes a Jari Indústria e Comércio S/A.
E a partir de 1967 a área pertencente à Jari Indústria e Comércio S/A foi vendida com a permissão do Governo Militar Brasileiro por apenas $ 3 milhões para Daniel Ludwig. As terras localizam-se na fronteira (o Rio Jari) entres os estados do Pará e Amapá, tendo proximidade com a capital Belém do Pará e com acesso ao Oceano Atlântico, o espaço adquirido totaliza áreas com dimensões similares à Bélgica e ao estado do Sergipe no Brasil . A causa primordial da compra da área segundo Ludwig era, porque este acreditava que a “alfabetização dos miseráveis do terceiro mundo levaria a um aumento brutal na demanda de papel” o que significava um lucro sem igual. Esse fator seria apenas um dos motivos pelos quais o empresário adquiriu a área, os outros concernem à abertura e facilidade de compra da área impostas a Daniel Keith pelo Governo militar brasileiro. Isso significava uma troca mútua entre ambos. Para o Governo da Ditadura, a instalação da fábrica alavancaria a economia brasileira, já que Daniel Keith não necessitaria de apoio estatal, enquanto que para Ludwig a compra de hectares com média de dois dólares por hectare, seria um vasto território a ser explorado e fortaleceria seu capital.
Levando em consideração a potencialidade futura do consumo de celulose que, segundo seus informantes econômicos atingiria seu ápice em 1985. O magnata apressou se em pensar qual espécie de árvore utilizaria para o plantio em larga escala, já que a vegetação nativa da área não era suficiente para suprir a possível demanda de celulose. Teve então apoio técnico de biólogos e agrônomos especializados em análises de culturas tropicais e os enviou para África, Ásia e para América do Sul. Não exibindo relevante demora, um botânico holandês membro da equipe de Ludwig encontrou na Nigéria uma espécie oriunda da Ásia que possuía características determinantes para cultivo, a Gmelina arborea. O “ouro verde” de Ludwig era caracterizado por ter resistência e durabilidade, além crescer numa escala rápida, cerca de 30 centímetros mensalmente, o que permitia cortes em períodos de seis anos. Estudos relacionados à adaptação da espécie a diversos climas e solos em países foram realizados, Ludwig tinha grande convicção em seus pesquisadores e dessa forma autorizou o plantio da gmelina, mesmo sabendo que alguns ambientalistas opinavam de maneira divergente de seus pesquisadores quanto à adaptação das gmelinas no ecossistema amazônico.
A escolha já tinha sido feita, agora se fazia necessário preparar o território pra o posterior plantio das árvores. O planejamento da área para a monocultura girava em torno de 160.000 hectares, a retirada da floresta nativa foi feita por 18 tratores, uma parcela da vegetação foi aproveitada para construção de casas comunitárias na cidade de Monte Dourado (tema que será abordado posteriormente no texto), porém o restante que somava grande parte das árvores foi empilhado e queimado. Após o desmatamento foi verificado que a camada de húmus do solo tinha sido retirada também, sendo assim o solo reservado para a cultivo estava pobre, impedindo o plantio das gmelinas. A alternativa foi derrubar mais áreas manualmente, com a utilização de serras elétricas, o que elevava os custos do projeto.
As gmelinas finalmente foram plantadas, mas outros entraves foram perceptíveis: a difícil adaptação da espécie ao solo arenoso da região do Jari, visto que a gmelina crescia em passo acelerado em solos graníticos ou calcários, técnicos especializados construíram diques numa altura de 10 centímetros para controlar a água proveniente do ecossistema alagado do Jari e assim iniciar a plantação. Outro obstáculo foi constatado, foi percebido que o solo era pobre em sulfúrio, o problema foi resolvido com o emprego de sulfato de amoníaco no mesmo,com esta medida a porcentagem de aproveitamento da colheita teria chances de 250 % de aumento.
Os resultados numéricospositivos propiciaram a abertura de mais áreas da plantação, porém dessa vez o visionário Ludwig, tinha a pretensão de investir na criação de gado, só que este não imaginava que sua posse escondia uma imensa reserva de caulim (um tipo de argila nobre utilizada na fabricação remédios, impressão em papéis, cerâmica, entre outros), uma das maioresdo planeta. O caulim encontrado serviria futuramente para o branqueamento do papel, o que necessitou da construção da construção de uma fábrica para trabalhar com o beneficiamento da matéria-prima.
O tempo de colheita das gmelinas se aproximava então Daniel Keith comprou uma gigantesca fábrica de beneficiamento de celulose, que foi montada sobre plataformas estabelecidas em estaleiros na cidade de Kure, no Japão. Participavam da montagem das estruturas vinte equipes japonesas, outras europeias e americanas. Após a montagem as plataformas foram transportadas por via fluvial para a região circunscrita das proximidades do Rio Jari. A fábrica era composta por duas plataformas, as dimensões de cada uma eram 240m x 50m, com altura aproximada de um edifício de vinte pavimentos com área correspondente a dois e meio campos de futebol. Em uma estava a fábrica de beneficiamento de celulose, tendo capacidade de produção de 220 toneladas de celulose branqueada por ano. A segunda plataforma abrigava uma usina de força vapor, responsável pelo funcionamento da primeira, esta tinha disposição para gerar 55 megawatts de energia elétrica.
Em 1978 durante 53 dias as duas plataformas navegaram 25.000 km até a cidade de Munguba no Pará, distância equivalente à metade da circunferência do globo terrestre. Sua chegada exigiu dos operários, jornadas exaustivas de trabalho em função da acomodação das plataformas, tão cansativas que um trabalhador do projeto acabou falecendo.
O projeto naquele momento estava pronto para ser executado, porém uma constatação foi compreendida, as plantações de Gmelina arborea estavam tendo resultado abaixo do esperado por Ludwig. O empresário ordenou que mais uma vez as árvores amazônicas fossem derrubadas, porém desta vez estas seriam misturadas com as gmelinas com a finalidade de chegar ao ápice de aproveitamento máximo da fábrica.
Nesse contexto todo um suporte de infraestrutura que não existia anteriormente no local foi construído como, estradas, ferrovias, portos e até uma cidadeconhecida por Monte Dourado, planejada pelo engenheiro Rodolfo Dourado, oferecendo incentivos relevantes para abrigar os trabalhadores com força de trabalho a baixo custo, estes migrantes do Brasil, que residindo num local mais próximo da fábrica, reduziriam os gastos de Ludwig com mão-de-obra importada. O impacto trazido pelo Projeto Jari assumiu proporções consideráveis que promoveu o surgimentode cidades informais e periféricas como: Beiradão e Beiradinho, que não dispunham eaté hoje não dispõem de infraestrutura básica adequada, pois são caracterizadas por um amontoado de favelas de habitações palafitas.
Com o passar foi visto que as exorbitantes despesas geradas pelo Projeto Jari de Daniel Ludwig eram superiores aos lucros esperados. Soma-se ainda a esse fator preponderante, a intervenção do Governo brasileiro quando a devastação da área e perda da biodiversidade local tornaram-se extremamente perceptíveis. Em 1980 uma expedição de soldados brasileiros aportaram na fábrica do Jari, com o intuito de impedir a derrubada de mais árvores, estas que se encontravam numa região que excedia os limites do Projeto, dessa forma acirrando a desarmonia de pontos de vistas do Estado brasileiro e do empresário norte-americano.
A tal ponto chegou à situação, que em 1981, Daniel Keith Ludwig abandonou oficialmente o Projeto Jari. Exigiu a indenização do então presidente do Brasil João Baptista Figueiredo de US$ 6 milhões de dólares por ano em razão dos serviços sociais e infraestruturais que aplicou no Projeto, se a proposta de Ludwig não fosse atendida este despediria todos os funcionários brasileiros pertencentes à fábrica. O presidente não respondendo absolutamente coisa alguma irritou Daniel Keith, que em 1982 pôs a venda o Projeto Jari para um consórcio de negociantes brasileiros por um terço de seu real preço. Os gastos de Ludwig com o Projeto totalizaram na época um bilhão de dólares.
Por fim os empresários que adquiriram o Projeto Jari acabaram exigindo indenizações do Governo pelos mesmos motivos exigidos por Ludwig. As indenizações foram convergidas no pagamento das dívidas que resultaram do Projeto Jari. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico E Social) admitiu as despesas oriundas da fábrica e da usina e o Banco do Brasil tomou para si outra que somava US$ 180 milhões. Um grupo formado por uma empresa privada chamada CAEMI assumiu 40% das ações do Jari, posteriormente repassou estas para o Grupo Orsa em 1997 que é o atual proprietário, o Projeto Jari assumiu com a mudança administração a denominação de Jaricel (Jarí Celulose, Papel e Embalagens S/A). Os avanços das questões ambientalistas principalmente ligadas ao Protocolo de Kyoto remodelaram as formas de interação da fábrica com o meio ambiente. Segundo informações adquiridas no website do Grupo Orsa, as ações economicamente viáveis, socialmente justas e ambientalmente corretas são norteadoras da política empresarial da Jaricel.
A história da implantação do Projeto Jari relata a fixação de elementos no espaço natural, especificamente as ações empresariais de proporções internacionais, instaladas na Amazônia Brasileira. Suas resultantes concernem principalmente em questões de intervenção paisagística natural e alterações significativas do ponto de vista urbano-social. Foi perceptível a partir do desenvolvimento deste texto que, as ações planejadas pela humanidade nem sempre alcançam suas metas almejadas, esta saga da realidade brasileira confirma a total dependência do homem com a natureza. O grande problema é que esta nem sempre se regenera dos danos oriundos das atitudes humanas, esta problemática é um dos maiores, ou senão o maior desafio para nós enquanto arquitetos, urbanistas e cidadãos de um planeta que clama por ajuda.

REFERÊNCIAS

TEIXEIRA, Carlos Moreira. 1968-2008: do Projeto Jari ao Protocolo de Kyoto.


domingo, 6 de janeiro de 2019

NAUFRÁGIO DO NOVO AMAPÁ COMPLETA 38 ANOS



Hoje, domingo, dia 6/1/19, completa 38 anos do naufrágio do barco Novo Amapá, que ocasionou a morte de cabeça de 400 pessoas nas águas do Jari. A tragédia está registrada como um dos naufrágios onde morreu o maior número de vitimas já ocorridos na Amazônia.
O barcou partiu de Santana por volta de 14h com destino à Monte Dourado, Pará  e naufragou por volta de 21h após bater em um banco de areia nas proximidades da foz do rio Cajari.
O mais incrível de tudo é que quase 3 décadas depois da tragédia ninguém foi responsabilizado criminalmente pela mesma.

   
Fonte: Diário do Amapá. 
 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A COISA TÁ FEIA: Somente 1 dos 16 municípios do Amapá têm aterro sanitário


Quinze dos dezesseis municípios do Amapá ainda têm lixões. O governo busca alternativas para resolver o problema.
 É o que mostra um levantamento feito pelo Ministério Público do estado. Somente Macapá tem um aterro sanitário e que ainda precisa atender algumas exigências para se adequar às regras da Política Nacional de Resíduos Sólidos.
 A lei determina ações como a extinção dos lixões e a implantação da reciclagem, reuso, compostagem, tratamento do lixo e coleta seletiva nos municípios.
 Esse é o segundo levantamento do tipo. O primeiro foi feito em 2008. E mostra que, de lá para cá, pouca coisa mudou: os 15 lixões no estado apresentam descarte irregular de lixo, com material a céu aberto e sem separação. Além disso, ficam dentro do perímetro urbano e perto de rios.
 O Governo do Amapá afirma que estuda a possibilidade da formação de consórcios para amenizar o custo de implantação de aterros sanitários, que ainda é considerado alto para os pequenos municípios. Porém ainda não existe previsão para que tais medidas sejam de fato iniciadas.
 As promotorias do MP farão termos de ajustamento de conduta e darão prazos para licenciamento e regularização dos lixões de acordo com o contexto de cada município.
Caso os acordos não sejam cumpridos, as promotorias podem entrar com ações civis públicas como forma de cobrança.

Fonte:  radioagencianacional.ebc.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

VALE A PENA LER: BANHO DE RIO, CABEÇA FRIA

Por Fernando Gabeira

Tenho viajado pelo interior do Amapá, divisa com o Pará, para conhecer melhor a região que Temer quer abrir às empresas mineradoras. Não estava satisfeito com o debate. É preciso ver de perto. Tenho falado com geólogos, pilotos extrativistas, garimpeiros, para ouvir suas opiniões.
Devo refletir um pouco sobre algumas experiências decisivas do Amapá. Uma delas foi a extração de manganês na Serra do Navio. A outra é o projeto Jari, do famoso Daniel Ludwig, que aconteceu a poucos quilômetros do lugar onde estou baseado. Elas deixaram um rastro de decepção.
Navegando num calor de rachar, vi algumas pessoas no rio, à sombra de uma árvore, apenas com a cabeça fora d’água. Invejei seu conforto. Gostaria de estar assim no momento em que escrevo sobre a semana no Brasil. É preciso muito sangue-frio para falar de alguns temas, como as Olimpíadas de 2016 e as malas cheias de dinheiro de Geddel Vieira Lima, ou mesmo os diálogos de Joesley Batista.
As Olimpíadas foram desastrosas para a imagem do Brasil. No princípio, argumentávamos que elas foram pensadas num momento de euforia econômica. A chegada da crise iria mostrar ao mundo nossa vulnerabilidade. Depois, surgiu o debate sobre a Baía de Guanabara e a poluição nas lagoas do Rio. Era ingênuo supor que, ao se revelar para o mundo, os observadores não iriam descobrir que ainda estamos no século XIX em termos de saneamento.
Passados os jogos, reacendeu a discussão sobre o legado. Piscinas abandonadas, velódromo em chamas. Percebemos ali que a tendência era perder muitas das construções, algumas delas superfaturadas.
Quando o “Le Monde” denunciou o suborno para que o Rio fosse escolhido, emergiu de novo a figura de Arthur Soares, o Rei Arthur da corte de Sérgio Cabral. Mas o tema caiu num certo vazio. Era muito constrangedor para nós. Alegrei-me quando Malu Gaspar fez um perfil de Rei Arthur na revista “Piauí”. Pensei: agora sim, não só o enigmático personagem viria à tona como vai ficar mais claro o mal que esse gente fez ao Rio e o tremendo desgaste que os dirigentes, eufóricos com a escolha, impuseram à imagem do Brasil.
A Operação Unfair Play, em colaboração com investigadores franceses, confirma a denúncia do “Le Monde”. E mostra que além de Cabral e do Rei Arthur, contaram também com Carlos Nuzman. Os dirigentes esportivos disputam hoje com os políticos quem joga mais baixo a imagem do Brasil. Nuzman está proibido de participar do sorteio das Olimpíadas. A polícia não o deixa mais sair do país. O presidente da CBF também não deixa o país, com medo de ser preso lá fora.
Devem olhar para as cadeiras vazias do Brasil e lamentar como um país de importância internacional tenha chegado a esse ponto. A medalha de ouro no constrangimento nacional foi a descoberta das malas e malas de dinheiro no apartamento usado por Geddel Vieira Lima, em Salvador.
R$ 51 milhões, horas de trabalho contando o dinheiro nas máquinas. A imagem dessas malas cheias de dinheiro correu mundo, um político de segundo escalão no Brasil tornou-se uma espécie de Tio Patinhas. Creio que o melhor caminho para contornar o constrangimento no exterior é o que usamos aqui dentro para nós mesmos: tudo isso está acontecendo porque há uma competente investigação policial, que conta com o apoio da maioria da população.
Os mecanismos de justiça ainda não parecem à altura do desafio quando vemos que Geddel estava solto, sem tornozeleira, porque não havia dinheiro público para comprá-las. A um quilômetro dali, Geddel acumulava dinheiro para comprar todas as tornozeleiras do país. Suspeito que o dinheiro daria para comprar a fábrica. De qualquer forma, o dinheiro foi recuperado, e, segundo ouvi no rádio, Geddel ocupa hoje o sétimo lugar no ranking de maior assalto no mundo.
Ao pensar nas gravações de Joesley Batista, enquanto descia o rio de volta para Laranjal, tive inveja de novo dos meninos mergulhando no rio Jari. A delação de Joesley foi o ponto mais vulnerável da Lava-Jato, e por ele entraram também os adversários que querem enfraquecer o combate à corrupção e deixar tudo como está. Há sempre tempo, numa operação complexa como essa, para reparar erros. O melhor caminho, creio, é o de anular a delação de Joesley, mantendo as provas que ele entregou.
Lula, Dilma e o dirigentes do PT foram denunciados. A situação do partido se agrava, e seguem numa caravana pelo Nordeste que lembra um pouco a Caravana Rolidei, numa espécie de despedida. Apesar de o filme de Cacá Diegues “Bye Bye Brasil” ser mais poético e complexo; por isso foi tão discutido por ensaístas no exterior.
A aposta do PT em negar as acusações, reduzi-las a uma perseguição política, continua de pé. Mas vai transformá-lo em algo mais próximo da religião. Será preciso acreditar neles, apesar de todas as evidências, supor que a crise econômica nasceu com o governo Temer, que os assaltos gigantescos à Petrobras não aconteceram.
Benza Deus, como se dizia em Minas. A semana merecia um banho de rio.

Fonte: Diário do Amapá

Fonte: galeravaledojari.blogspot

Fonte: galeravaledojari.blogspot 

Fonte: Heraldo Amoras

Fonte: galeravaledojari.blogspot
Fonte: oglobo

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

SE FAZ NECESSÁRIA A PRESERVAÇÃO DA AMAZÔNIA?

POR 
O século XIX ainda não terminara quando o médico e explorador francês Jules Crevaux se tornou o primeiro ocidental a atravessar as montanhas do Tumucumaque, no Amapá, que encastelam o extremo norte do Brasil. Como tantos antes dele, buscava o mítico El Dorado. Encontrou só doenças desconhecidas, florestas quase intransponíveis e desbravou o Oiapoque.
Como nos tempos de Crevaux, a expressão até onde a vista alcança não se aplica às terras da Amazônia compreendidas pela Renca, na fronteira do Pará com o Amapá. O oceano verde parece transbordar pela curvatura da Terra. Ilusão de ótica provocada pela sucessão de florestas de copa fechada que ao longe parecem uma só massa verde.Crevaux morreu sem ver traço do minério precioso que só a tecnologia do século XX indicou existir, mas ajudou a alimentar a febre do ouro. Uma febre que nunca desapareceu e foi renovada com a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca).
Um oceano profundo, impenetrável para Crevaux e para os satélites do Google Earth. Mesmo cravejada de pontos de ocupação — entenda-se de desmatamento — a floresta ainda domina pessoas e animais, como o faz há milhares de anos.
O ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, alega que não se trata de um paraíso. E de fato o elenco de crimes ambientais e fundiários típico da Amazônia está presente em vários pontos das unidades de conservação e fora delas. Invasões, grilagem e desmatamento.
E a criação da Renca nunca conseguiu impedir a extração ilegal de minério nessa região. Seja por empresas irregulares ou garimpeiros isolados. Ainda assim, a maior parte da floresta se manteve de pé. O decreto mais recente promete punir os infratores e não lhes conceder licenças. Fica sem explicação, porém, o por quê de isso não ter sido feito antes, já que não há novidade na ilegalidade nem na presença deles ali.
Nos 47 mil quilômetros quadrados da Renca — uma terra do tamanho da Dinamarca ou um Espírito Santo — reina a Amazônia profunda, que controla nuvens, rios, o clima de boa parte da América do Sul. Essas matas e suas trocas diárias com a atmosfera influenciam o clima no Sudeste e no Centro-Sul do Brasil. Não se trata de conservacionismo ortodoxo, mas de serviço ambiental crucial para o restante do país,com impacto na geração de energia e na agricultura.
Ali está uma das últimas fronteiras de vida selvagem e regulação climática da Terra. E o que até agora era considerado o grande oásis de biodiversidade e segurança da integridade da Amazônia.
O Amapá costumava se orgulhar de ser o estado que menos desmata. No novo decreto da Renca, o governo destaca, sem explicitar o motivo da menção, que o desmatamento este ano rompeu a série de aumentos e caiu. E mais não disse.
Diferentemente do Pará, que lidera as estatísticas de desmatamento, o Amapá tem cerca de 74% do território em unidades de conservação e terras indígenas. Menos de 10% da biodiversidade são conhecidos, mas estima-se que as espécies cheguem a quase 800 mil. O valor em serviços ambientais e para a indústria de biotecnologia nem se arranha a ser estimado.
A maior parte dessas florestas é tão remota — só se chega de barco em viagens que se contam em dias ou de aviões que pousam em pistas esparsas e precárias — que permanecem em boa parte terra incógnita. Os poucos habitantes — sejam índios ou não — vivem quase sempre nas bordas, junto aos rios. Mas é no interior dessas matas —com uma profusão literalmente ainda inumerável de espécies de plantas e animais — que a Amazônia exibe toda a sua opulência.
O novo decreto que abre áreas da Amazônia à exploração mineral não diz respeito à opulência do que está sobre o solo. Seu objetivo são as jazidas do subsolo. Riquezas que desde os tempos da busca do El Dorado, dos devaneios de Pizarro, alimentam sonho, cobiça, riqueza e destruição.
No território compreendido pela Renca há sete unidades de conservação. Três são de proteção integral: Estação Ecológica do Jari, Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e Reserva Biológica de Maicuru. Quatro são de uso sustentável: Reserva Extrativista Rio Cajari, Floresta Estadual do Paru, Floresta Estadual do Amapá e Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru. Há também duas terras indígenas: Rio Paru D’este e Waiapi. Em apenas uma delas, a da Floresta Estadual do Paru, o plano de manejo prevê a possibilidade de mineração.
Mas com a liberação para a mineração de áreas contíguas, se teme que as florestas das unidades de conservação sofram, desbastadas pela abertura de estradas, ferrovias e povoados, legais ou não.
A História da Amazônia ensina que, quando aumenta a corrida por minérios preciosos, se segue uma torrente de novos moradores numa terra onde a desordem fundiária impera.
A Renca jamais teve como meta proteger a natureza. O fez por efeito colateral. A Renca foi criada em 1984, num dos decretos finais da ditadura. Seu objetivo era assegurar ao Estado brasileiro a exclusividade de recursos minerais, que prospecções até hoje, em tese, preliminares, indicam haver coisas muito mais valiosas do que cobre. Nos anos 1970, pesquisas geológicas estavam em alta, nos rincões da Amazônia inclusive. Por esta época encontrou-se a Província Mineral de Carajás, no sudeste do Pará. E também outras áreas. A que veio se tornar a Renca estava entre elas.
O nome Renca engana. O cobre é o primo pobre dos tais associados, ouro, tântalo, manganês entre outros. O governo tinha a exclusividade da pesquisa. Tinha, mas não usou esse direito. E a Renca, no radar das mineradoras, foi esquecida pelo restante do país.
O decreto fala em licenciamento e fiscalização rigorosos. Mas o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, o maior desastre ambiental da História do Brasil e o pior com barragens de mineração do mundo, está aí para provar que os processos de licenciamento e fiscalização têm falhas graves.
O Ibama, cujos fiscais enfrentam risco de vida em operações na Amazônia, teve o orçamento reduzido em 42% desde 2012. Falta dinheiro até para combustível de viaturas usadas na fiscalização.
Um dos pontos polêmicos é a degradação de áreas protegidas com contaminantes vindos de fora de seus limites. Cientistas têm encontrado mercúrio nos rios da Amazônia, proveniente dos garimpos ilegais. Aberta a porteira para a mineração legal em grande escala, não há como garantir hoje, que mesmo que se cumpram todas as regras de segurança possíveis, os garimpos fora da lei deixarão de despejar venenos nos rios.
A abertura de novas áreas à mineração pode trazer recursos a médio e longo prazos. Mas em áreas sensíveis, como a Amazônia, pode trazer também prejuízos imediatos ao país, se não vier acompanhada de garantias de infraestrutura de segurança ambiental eficiente, provida de recursos e operacional. E esta não existe hoje na prática.



Fonte: oglobo

BOM EXEMPLO: Estudante cria vasos com sementes de açaí


Produtos ecológicos são montados com a fibra e borra separados das sementes. Jovem de 17 anos viaja no domingo 3 para apresentar projeto em evento no México.

Com o intuito de promover uma destinação ecológica para as sementes de açaí, a estudante amapaense Aira Beatriz Souza, de 17 anos, elaborou um vaso biodegradável à base do produto. A ideia surgiu após ela perceber que os vasos podem ser usados como insumos biológicos em plantas. O projeto da jovem foi o único do Brasil selecionado para a Copa Science de México 2017, uma feira internacional de ciências que acontecerá na cidade mexicana Culiacan.
Segundo a estudante, esses vasos são embalagens ecológicas que servem de substratos quando decompostas no solo, além de não deformar as raízes das plantas. O biovaso apresenta também sinais de retenção de umidade e resistência, com durabilidade de aproximadamente dois meses.
Usando moldes de plástico, a estudante explica que montou os vasos com a fibra e borra que foram separados das sementes, após a etapa de despolpamento. Depois de serem moldados, os vasos são postos para secar ao sol por cerca de 48 horas.
“Deixo as sementes secarem ao sol para fazer a separação dos materiais e com a borra e as fibras, faço a massa que será moldada. Então, após 48 horas no sol, os vasos estão prontos para serem usados com as plantas. Pode ser enterrado junto com a planta porque serve de insumo biológico”, explicou Aira.
A aluna apresentou o projeto para a mãe, Danielle Britto, professora em uma escola pública da capital onde Aira criou em 2016 um projeto de lixeira sustentável feita de tubos de papelão e lonas de vinil. A iniciativa foi logo aceita e ambas inscreveram o projeto do biovaso em um evento de ciências em São Paulo, onde ele foi apresentado.
A estudante, que cursa o terceiro ano do ensino médio em uma escola particular de Macapá, teve a ideia apoiada pela Embrapa Amapá, que está dando todo o suporte para que a pesquisa dela ganhasse notoriedade.
“É nítida a quantidade de caroços de açaí que são descartados na região Norte, então com certeza o potencial para o desenvolvimento do projeto é grande. A Embrapa colaborou nas análises do biovaso e demos esse apoio”, explicou a pesquisadora da Embrapa Amapá, Daniela Gonzaga.
A adolescente embarca no domingo (3) para o México, junto com estudantes de diversos países. Considerada uma das maiores feiras de ciências das Américas, o evento na cidade de Culiacan, no estado de Sinaloa.
“Vai ser um momento de grande aprendizagem para mim, trocar experiências com estudantes de outras culturas e poder falar com vários profissionais da ciência. Pretendo levar este projeto, que ainda está em fase de estudos, para que seja aproveitado na economia ecológica no Amapá”, ressaltou Aira.
 -  Vasos são embalagens ecologicamente usadas para plantas  Foto: Reprodução/Rede Amazônica
 Vasos são embalagens ecologicamente usadas para plantas Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Fonte: folhago